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A Teoria de Darwin


Não tem como deixar de reconhecer que a Teoria da Seleção Natural, de Charles Darwin, impactou decisivamente o ambiente intelectual de sua época. Suas ideias eram fortes e perturbadoras, e estavam prontas para afrontar muitas das crenças e convicções que ocorriam na segunda metade do século XIX. Nascido em 12 de fevereiro de 1809, na cidade de Shrewsbury, uma cidade do condado de Shropshire, no oeste da Inglaterra, Charles Robert Darwin, foi o quinto de seis filhos de um médico e financista muito requisitado, chamado Robert Waring Darwin, e Susannah Darwin, que veio a falecer em 1817, quando Charles tinha apenas 8 anos. No ano seguinte da perda de sua mãe, Darwin começa a frequentar a escola em Shrewsbury, e de 1818 à 1825 passa cursar medicina na Universidade de Edimburgo, na Escócia, onde passou a investigar invertebrados marinhos sob orientação do naturalista Robert Edmond Grant (1793-1874), um dos momentos em que começou a se interessar pela natureza à sua volta. Depois de dois anos de curso, desencantado e sem interesse pelas aulas de anatomia, assim como o fato de não suportar ver sangue, o jovem Darwin abandonou o curso e, no mesmo ano, incitado pelo pai se inscreveu na Universidade de Cambridge para estudar Bacharelado em Artes, que o permitiria se tornar pastor na Igreja da Inglaterra. Darwin se graduou em 10º lugar dos 178 aprovados, porém não realizou o exame clerical. Já a famosa expedição para a América do Sul a bordo do HMS Beagle ocorreu em 27 de dezembro de 1831, onde foi convidado pelo capitão Robert FitzRoy. Ele se interessava por botânica e geologia, dois assuntos que se tornaram suas grandes paixões. Inclusive foi por esse interesse, que seu professor o indicou ao capitão, que o convidou mais tarde. E diferente de outros naturalistas da época, que passavam horas trancados em seus laboratórios com seus estudos, Darwin dava tanta importância aos seus estudos quanto à experiência no mundo. Tanto que junto dele, no Beagle, embarcaram 245 livros. Então reuniu sua biblioteca, um microscópio portátil e mais alguns materiais para a sua viagem. No ano seguinte, já havia mandado para seu amigo e mentor em história natural chamado John Henslow, o professor que o indicou à viagem, seus primeiros espécimes que incluíam aves, insetos, peixes, camundongos, cracas entre outros animais, além de conchas, ossos, fósseis, sementes, plantas e peles, para os armazenar até seu retorno. Conhecendo a grande diversidade do mundo, para além da Inglaterra, Darwin foi se educando e refinando seu olhar pela natureza, e foi assim que ele se descobriu também escritor. Ele tinha que descrever com o máximo de precisão tudo o que ele via para pessoas que nunca tinham presenciado nada daquilo, até porque, não existia google naquela época, certo? E a fotografia ainda estava sendo inventada. Esta é uma passagem de seu diário: “29 de fevereiro, Bahia ou São Salvador, Brasil, 1832. O dia transcorreu deliciosamente, mas esse talvez seja um termo pobre para descrever os sentimentos de um naturalista que pela primeira vez aventurou-se sozinho por uma floresta brasileira. A elegância da relva, o inusitado das plantas parasitárias, a beleza das flores, o verde brilhante da folhagem e acima de tudo, a exuberância do todo, me encheram de admiração. Uma combinação muito paradoxal de som e silêncio permeia as partes escuras da mata. O som dos insetos é tão alto que é possível escutá-los dentro de uma embarcação ancorada a centenas de metros da praia. Porém nas profundezas da floresta, um silêncio universal parece reinar. Após passear por algumas horas, fui surpreendido por uma tempestade tropical, tentei me refugiar debaixo de uma árvore. Era tão grossa que nenhuma chuva inglesa seria capaz de penetrá-la. Mas aqui, em poucos minutos, uma pequena cachoeira descia o seu tronco. É a essa violência das chuvas que devemos atribuir à vegetação que existe no solo das florestas mais cerradas. Se as chuvas daqui fossem como as chuvas dos climas mais frios, a maior parte dela seria absorvida ou evaporaria antes mesmo de encostar no chão." Darwin observava e anotava todas as novidades que via em sua viagem, só que ele ainda não sabia o que fazer com tantas “peças” e um “grande quebra-cabeças”. Então houveram 3 momentos especiais nos 5 anos de viagem que marcaram Darwin e que foram fundamentais para a criação da Teoria da Evolução das Espécies: o terremoto em grande escala no Chile, o desenterrar de fósseis de animais gigantes na América do Sul e a observação de pequenos pássaros nas Ilhas Galápagos. Essas 3 situações diferentes que anos depois se uniriam em sua memória apontando para uma só resposta. Quando presenciou o terremoto no Chile em 1835, ele não percebeu em primeiro momento os efeitos mais graves daquilo, porque ele estava protegido na praia. Porém nos dias seguintes ele explorou junto com a tripulação do Beagle toda a região costeira e as ilhas onde o terremoto tinha causado perturbações maiores. Darwin então conseguiu observar a mutação da terra, como conta em seu diário, onde descreveu desde a arquitetura chilena, as marés agitadas e o mar que invadiu as ruas após o terremoto até uma pequena ilha próxima que havia subido 4 metros à nível do mar. Na costa leste da América do Sul, encontrou fósseis de animais e notou que eles eram muito semelhantes a animais ainda vivos daquelas regiões. Avistou ossadas de tatus pré-históricos e, no entorno, localizou outros tatus vivos e começou a perceber que existia uma relação entre estes animais. Isso pode parecer óbvio para nós hoje em dia, mas devemos lembrar que foi ele quem teve a “chave virada” pela primeira vez sobre o assunto. A ideia de transformação estava começando a germinar na mente de Darwin. Isso nos leva ao momento mais conhecido na viagem do Beagle, a chegada nas Ilhas Galápagos, no dia 15 de setembro de 1835 o navio chegou à Ilha e lá ficou durante 35 dias. Trata-se de um arquipélago de ilhas vulcânicas a quase 1.000km de distância da costa da América do Sul, onde ele conta que a princípio mal consegue perceber que existe vida, entretanto foi exatamente neste lugar que ele encontrou seres vivos que tiveram uma relevância na sua futura contribuição para o jeito que hoje nós podemos entender a origem da vida sob o planeta terra. “Enquanto eu caminhava deparei-me com duas grandes tartarugas, cada uma devia pesar pelo menos 90kg. Uma delas estava comendo um pedaço de carne e, quando fui me aproximar, ela me encarou e afastou-se lentamente, a outra emitia um chiado grave e recolheu a sua cabeça para dentro do casco. Esses répteis gigantes rodeados pela lava preta, pelos arbustos desfolhados, pelos grandes cactos, me fizeram pensar em criaturas antediluvianas.” (ou seja, pré-históricas). Foram essas ilhas que Darwin fez uma espécie de laboratório ao ar livre, um pequeno mundo isolado, povoado por animais que não existem em outros lugares. Ele observou que em cada ilha existiam espécies distintas de tartarugas, que se diferenciavam pelo tamanho do pescoço e pelo formato dos cascos. O lugar perfeito para observar a olho nu, a evolução das espécies. Porém ele ainda não tinha noção disso e não imaginava a relevância do que estava vendo ali. Anos depois, na Inglaterra, ele iria fazer experimentos com caramujos e pombos, com sementes de agrião e cevada, com água doce e salgada, testando hipóteses para tentar reproduzir alguma das condições que havia visto naquelas ilhas, juntos das centenas de questionamentos que o fariam levantar sua teoria: Alguns questionamentos como: “Qual a causa do desaparecimento de tantas espécies e de gêneros inteiros?” “Do que vive o Albatroz tão longe da costa? Sempre foi um grande mistério para mim” "Qual causa pode ter alterado o habitat de um animal em lugar tão vasto, inabitado e pouco frequente como este?” “Porque algumas fontes são quentes e algumas são frias?” “O que acontece com esses vermes durante o longo verão que a superfície dos lagos se transforma em uma camada de sal sólido?” O sucesso de sua teoria se deve principalmente por ser um estudioso que foi à campo, pois a experiência de campo, está comprovada hoje em dia que enriquece os conhecimentos adquiridos por meios teóricos e é de extrema importância para os estudos da vida. Naquela época os estudos eram apenas para homens de classe privilegiada, que iam à faculdade para aprenderem a se comportar do jeito como era esperado deles, então não era esperado que um “gentleman” fizesse uma viagem como aquela. Porém, ele mesmo conta que esta foi a viagem que o amadureceu, o tirou de sua casa e o levou a lugares totalmente novos, onde foi possível vislumbrar pela primeira vez tudo o que ele poderia ser. “É bem provável que minha mente tenha se desenvolvido através de minhas observações durante à viagem, como comprova o comentário do meu pai, o mais preciso observador que conheci: quando ele me viu pela primeira vez depois da viagem, ele se virou para as minhas irmãs e explanou, ‘ora, o formato da cabeça dele mudou’". Até meados do século 19, a maioria dos cientistas ocidentais compartilhava a ideia de que Deus tinha concebido todas as criaturas do planeta. Porém alguns cientistas já falavam sobre uma possível evolução das espécies e, inclusive um deles era o seu avô, Erasmus Darwin. Charles havia lido o material que Erasmus escrevera sobre a evolução das espécies antes mesmo de embarcar no Beagle, mas ainda não havia concebido a ideia. Foi só depois da viagem que pôde entender e perceber a semelhança de certos animais com fósseis e assim, ao voltar para casa, depois de anos de experimentos e hipóteses, formulou a Teoria da Evolução das Espécies, através da seleção natural. De acordo com sua teoria, há uma luta pela sobrevivência na natureza, mas aquele que sobrevive não é necessariamente o mais forte e, sim, o que melhor se adapta às condições do ambiente em que vive. Como por exemplo, no ambiente árido, as tartarugas de pescoço longo alcançavam os arbustos para se alimentar. Enquanto aquelas que viviam em local úmido, podiam comer grama e se proteger dos predadores graças ao pescoço curto e à carapaça arredondada. A teoria defende que a espécie preserva características que favorecem sua sobrevivência, assim estabelecendo uma luta pela existência entre os organismos, não havendo uma superioridade entre os seres vivos ou a superioridade da espécie sobrevivente e sim, a sua capacidade adaptativa. Para explicar sua teoria, ele ilustrou a evolução da vida com um diagrama, que depois ficou conhecido como “A Grande Árvore da Vida”, onde explanou as afinidades muito complexas entre animais do passado e do presente, como explica Browne (2007), em uma das principais biógrafas de Darwin. Um dos estudos que o ajudaram a obter evidências para a sua teoria foram os tentilhões, nas Ilhas Galápagos. Ele observou que os pássaros tinham bicos de tamanhos e formatos muito variados e sua alimentação era adaptada em diferentes nichos ecológicos que ocupavam as Ilhas. Este é um processo chamado Radiação Adaptativa, que é um fenômeno evolutivo onde várias espécies se formam num curto período, a partir da mesma espécie ancestral. Para você entender melhor como chegou-se na Teoria, de que os seres vivos evoluem:

Assim como muitos outros experimentos realizados por Darwin, um em especial chamou bastante atenção, no qual Darwin observava e comparava seus filhos com orangotangos. Ele já fazia anotações sobre diferentes “objetos de estudos”, como sua esposa, que Darwin estudava mesmo desde antes de se casarem. Seus filhos se tornaram personagens muito importantes para o naturalista compreender a evolução humana. Um ano após seu primeiro filho nascer, Charles teve contato com Jenny, o primeiro orangotango do zoológico de Londres. Após muitos estudos e observações, o cientista passou a constatar a ideia de que nós e os macacos tínhamos um ancestral em comum. Essas informações primordiais sobre sua família e o orangotango influenciaram os livros A Origem do Homem e a Seleção Sexual (1871) e A Expressão das Emoções nos Homens e nos Animais (1872), onde neste livro, ele conta como fascinantemente os humanos reagem imediatamente ao barulho. Contudo, suas conclusões permeiam a sociedade até hoje, dando início ao que agora se transformou em um campo de estudo como a primatologia, que analisa nossos parentes para entender mais sobre a humanidade. Aliás, os avanços científicos vieram a comprovar a teoria de Darwin, e até a Igreja Católica a acabou aceitando décadas mais tarde, com as devidas ressalvas, de que a evolução era compatível com a fé. E não pense que foi só no século XIX que a ideia foi refutada, pois, ainda nos dias atuais, a teoria do naturalista provoca resistências, e já existem novas reações criacionistas às ideias de Darwin, além das perspectivas evolucionárias que foram aprimoradas depois dele. Isso em pleno século XXI. Por fim, após 3 anos de volta à Inglaterra, Charles Darwin passou a sofrer de enxaqueca diariamente, e em 1863 sua saúde começou a piorar gravemente. Sofrendo de dores de angina, também chamada de isquemia, uma condição que acarreta na diminuição do fluxo de sangue no coração, faleceu em decorrência de uma ataque cardíaco, em 19 de abril de 1882, aos 73 anos. Em seu trabalho, mostrou evidências de que as espécies sofrem mudanças ao longo do tempo e que elas surgem por meio de uma sucessão de ancestrais. Charles Darwin era apaixonado pela ciência e mais ainda por sua teoria. Sua curiosidade e paixão elevou sua ascensão como cientista e abriu portas para muitos outros estudiosos da época que junto dele, contribuíram para o avanço da ciência e principalmente do conhecimento da vida. Se interessou pela trajetória do naturalista e quer saber mais? Preparamos uma lista com vários livros para te indicar! · A Origem das Espécies, de Charles Darwin; · A Viagem do Beagle, de Charles Darwin; · As Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, de Charles Darwin; · A Viagem do Beagle: Viagem de um Naturalista ao Redor do Mundo, de Charles Darwin; · A Origem do Homem e a Seleção Natural, de Charles Darwin; · A Origem das Espécies por Meio de Seleção Natural: ou a Preservação das raças favorecidas na Luta pela Vida, de Charles Darwin; · O Brasil de Charles Darwin, de Luiz Mors Cabral; · Darwin sem Frescura, de Reinaldo José Lopes e Pirula; · Darwin por Darwin: Um Panorama de sua Vida e Obra Através de Seus Escritos, de Janet Browne; · Darwin uma Biografia em Quadrinhos, de Eugene Byrne, Simon Gurr; · O que maravilhou o Sr. Darwin, de Mick Manning e Brita Granström (livro infantil); Arte: Natália Lavínia A. de Souza; Texto: Mariana G. Furquim;

Pesquisa: Aline Freiria dos Reis; Raphael Martins; Texto Instagram: Aline Freiria dos Reis. Referências Bibliográficas:

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