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Ecologia de estradas



Pesquisas arqueológicas mostram a existência das estradas e vias de passagens desde os tempos pré-históricos. Nós nos locomovemos desde sempre e sendo assim, houve a necessidade de melhorar os caminhos para facilitar a locomoção de animais de tração, vulgo animais de carga, e tornando possíveis as primeiras transações comerciais. Na construção das primeiras rodovias artificiais, os terrenos foram nivelados, os buracos preenchidos e valas laterais para a drenagem da água foram criadas. De lá para cá, as estradas e rodovias evoluíram com a sociedade, ficaram cada vez mais complexas, até chegar nos dias de hoje onde muitos problemas ainda se encontram em busca de soluções. E foi justamente pelo impacto causado pelas estradas que se fez necessária a Ecologia de Estradas, um ramo da Ecologia que busca entender como as estruturas e o tráfego de rodovias e ferrovias afetam os padrões e processos ecológicos, de organismos e ecossistemas. Apesar de haver estudos sobre o tema há mais de um século, o campo de estudo da ecologia de estradas é relativamente novo.

Estes estudos são de extrema importância, integrando tanto questões ambientais, sociais e econômicas para minimizar os impactos causados pelas obras rodoviárias sobre a biodiversidade, além de incluir as rodovias às paisagens locais da melhor maneira possível, visando o menor impacto às vidas do habitat em que serão construídas as novas estradas.

Ao observarmos os impactos gerados pela construção de estradas, vemos que animais silvestres são comumente vistos atropelados no meio da pista ou em suas margens, fragmentos florestais são bastante comuns no entorno da rodovia, além de grandes áreas agrícolas, provenientes de uma grande quantidade de supressão da vegetação na construção das estradas e depois, na urbanização ao seu entorno. Em cada fase de sua construção, podem ser observados diversos impactos sobre o local, desde a abertura das passagens, limpeza, canteiros de obras e principalmente o tráfego dos veículos numa estrada recentemente criada. Além disso, as colisões entre veículos são também bastante frequentes.

Quando uma nova estrada é construída, são vários os impactos negativos gerados na natureza, onde ocorre uma grande degradação de um habitat, mudando todo um curso natural que já existia ali, gerando uma grande mudança no padrão de vida dos animais e outros seres vivos daquela região, em seu comportamento, reprodução e até mesmo em seus padrões de deslocamento. A fragmentação de habitat causa um efeito de borda, basicamente criando mudanças nos parâmetros físicos, químicos e biológicos do ecossistema. Impactando também na busca por alimentos e conectividade entre as espécies. Outro fator preocupante é a poluição sonora e química produzida nas estradas, principalmente nas vias próximas a esses fragmentos.

Tudo isso propicia um fluxo maior dos animais nas estradas, resultando em atropelamentos da fauna silvestre, um sério risco na redução das populações, possibilitando até a sua extinção local, como em uma área de espécies endêmicas, cuja sua distribuição se restringe a uma área determinada. As colisões com animais nas estradas têm gerado prejuízo para os motoristas, onde as colisões com animais têm aumentado, gerando acidentes graves e até mesmo fatais, pois muitos animais de grande porte como antas e cervos, adentram nas estradas e acabam sendo atropelados por veículos em alta velocidade.

Para amenizar os impactos gerados, a Ecologia de Estradas se faz mais que necessária, buscando medidas de mitigação desses efeitos à natureza e soluções positivas tanto para a fauna silvestre, quanto aos motoristas. É necessária a atuação de profissionais da área ambiental em todas as etapas do planejamento, da construção e da operação de uma estrada, sendo possível antecipar muitas ações e medidas e reduzir danos e custos aos usufruintes desses locais.

O planejamento da construção de uma via é determinado por parte do governo, sendo oficializado por meio de políticas nacionais de transporte, estando em vigor, atualmente, o Sistema Nacional de Viação (SNV), instituído em 2011, mas baseado no Plano Nacional de Viação publicado em 1973. Infelizmente, até hoje, existem discrepâncias entre esses sistemas, visto que esses instrumentos não incorporaram elementos relacionados à política ambiental nacional, havendo, em alguns casos, conflitos severos entre o que é planejado pelo Ministério de Infraestrutura e o que é exigido pela legislação ambiental brasileira, já que o Sistema Nacional de Viação foi baseado no Plano Nacional de Logística que foi criado antes da elaboração da Política Nacional de Meio Ambiente e da maior parte da legislação ambiental brasileira. Ainda há, até hoje pouca comunicação entre as políticas elaboradas pelos ministérios, gerando apenas prejuízos para a natureza, economia e os usuários das estradas.

Estima-se que 475 milhões de animais são mortos por ano em acidentes nas rodovias e estradas de todo o Brasil. O que tem levado pesquisadores a buscarem soluções através de projetos para reduzir os impactos do tráfego de veículos na biodiversidade.

Um deles é o da UFLA (Universidade Federal de Lavras), que desenvolveu o BioInfra, uma iniciativa de abrangência nacional conduzida pelo Centro Brasileiro de Ecologia de Estradas (CBEE) da Universidade. Esse projeto envolveu 18 instituições e 50 especialistas brasileiros na elaboração de 40 ações, sendo capazes de reduzir os efeitos negativos da infraestrutura viária terrestre sobre a biodiversidade, que estão sendo desenvolvidas e acompanhadas em um período de seis anos.

No ano de 2014 o CBEE também desenvolveu o Sistema Urubu, uma incrível rede social de conservação da biodiversidade brasileira, que age com o objetivo de reunir, sistematizar e disponibilizar informações sobre a mortalidade de fauna selvagem nas rodovias e ferrovias, auxiliando o governo e as concessionárias na tomada de decisões para reduzir esses impactos por meio de um aplicativo gratuito, onde qualquer pessoa pode registrar por meio de fotografias e informações sobre atropelamento de animais silvestres, que são avaliados por pesquisadores e especialistas em identificação das espécies.

No ano de 2015, a rodovia MS-040 que liga Campo Grande a Santa Rita do Pardo passou por obras de pavimentação e, consequentemente, houve uma explosão de atropelamentos de animais, especialmente de espécies já ameaçadas de extinção como onças-pintadas, antas e lobos-guarás. O crescente dos atropelamentos na rodovia também gerou perda de vidas humanas e custos financeiros.

O que levou as ONGs {Viafauna Estudos Ambientais Ltda, Associação de Mulheres Protetoras de Animais Rejeitados e Abandonados (AMPARA), Instituto Raquel Machado, Rede Nacional Pró Unidades de Conservação, Fundação Neotrópica do Brasil, Biofaces Internet Ltda, Icas (Instituto de Conservação de Animais Silvestres), Ipê (Instituto de Pesquisas Ecológicas) e Panthera Brasil fizeram representação contra o Governo do Estado de Mato Grosso do Sul e Agesul (Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos)} junto ao MPE/MS, a criarem o projeto chamado “Bonito Não Atropela”, e cobrar a realização ou divulgação de estudos de impacto ambiental para o processo de licitação das MS-382 e MS-477 que se encontra em fase de habilitação de empresas.

A preocupação das ONGs é que os erros cometidos anos atrás nas obras de recuperação da MS-040 voltem a se repetir na nova licitação.

Um estudo realizado pela ICAS (Instituto de Conservação de Animais Silvestres) em parceria com o INCAB/IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas), que envolve a execução de estudos técnicos para levantamento de impactos ambientais, em geral, execução de estudos técnicos para levantamento de impactos à fauna silvestre, recomendação e implementação de medidas de mitigação desses impactos, aponta que foram registradas 1.924 mortes de animais silvestres no período de fevereiro de 2017 e janeiro de 2020 nos 224 km da rodovia MS-040, no perímetro das cidades de Campo Grande a Santa Rita do Pardo.

O atropelamento de fauna é reconhecido como a principal causa direta de mortalidade de vertebrados, superando outros impactos como a caça, se fazendo necessárias medidas de mitigação dos impactos no planejamento da construção das estradas levando em consideração o atropelamento de fauna e a paisagem, o que torna as medidas paliativas mais econômicas do que a implementação dessas após as vias já construídas.

De modo geral, existem dois tipos de medidas para a mitigação dos impactos, as que têm como objetivo modificar os hábitos dos motoristas, como placas, semáforos, redutores eletrônico, algo novo no mercado, e as campanhas educativas, por exemplo, e aquelas que têm como objetivo modificar os hábitos dos animais como as passagens de fauna e Ecodutos.

Os Ecodutos foram criados na década de 1950, também chamados de pontes verdes. São passagens que cruzam as grandes rodovias, de forma que os animais residentes no entorno das estradas possam atravessá-las em segurança, sem nenhum risco de atropelamento. Essas travessias são compostas por camadas de rochas, solo, vegetação rasteira, e até mesmo árvores de médio porte, as pontes são planejadas e implantadas de acordo com os tipos de espécie que vivem no local e de acordo com o tipo de vegetação existente nos arredores.


Os ecodutos já foram aderidos em diversos países como por exemplo a Austrália, Holanda, Canadá, Alemanha e muitos outros. Aqui no Brasil as primeiras duas estruturas começaram a ser implantadas em 2017. As pontes já criadas estão no Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro.

Ponte verde sobre rodovia de São Paulo (Foto: Reprodução/DERSA)


Para os animais arbóreos, são alternativas as passagens suspensas, que são estruturas geralmente feitas de cabos de aço ou cordas que ligam as copas das árvores, se destinam à passagem de espécies arborícolas em ambientes florestais, como as passagens aéreas de fauna na Rodovia GRI 253, que cruza a Estação Ecológica de Angatuba, onde é encontrada a espécie de Mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus) , ameaçada de extinção e considerada Patrimônio Ambiental Paulista.



Passagem aérea na Rodovia GRI 253 (Foto: Acervo Estação Ecológica de Angatuba / Francini de Oliveira Garcia)


Outras medidas mitigatórias que impedem o contato direto dos animais com as estradas são as cercas e barreiras, normalmente construídas com telas de arame galvanizado, com malha entre 2 e 13 cm. Variam de acordo com os grupos de animais presentes no habitat. A parte inferior possui uma malha menor, visando impedir a passagem de pequenos animais e sua base é enterrada no solo a uma profundidade de pelo menos 20 cm, evitando escavações que permitam a passagem de animais.


Cerca guia como forma mitigação dos impactos ambientais (Foto: www.e-publicações.uerj.br)


Além dessas medidas, campanhas educativas estão sempre sendo desenvolvidas para divulgar informações aos usuários e a população em torno sobre o número de colisões envolvendo animais, trechos e horários mais perigosos e procedimentos a serem adotados ao avistar um animal na pista ou próximo a ela. No Brasil, panfletos informativos vêm sendo distribuídos em postos policiais e de pedágio em rodovias licenciadas pelo IBAMA (O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).


Existem muitos fatores que influenciam na mortalidade de fauna nas rodovias e geram diversos tipos de incidentes, como o tráfego de veículos, paisagem do local, afugentamento, atração de carniceiros à pista, a capacidade e velocidade de travessia do animal e a consistência dos animais no entorno das estradas.

Por esse motivo, o desenvolvimento de novas estratégias de proteção, o fortalecimento das existentes e a conscientização da população, são os passos importantes para a manutenção e conservação da fauna, amenizando os impactos gerados pela extensa malha de rodovias pavimentadas e não pavimentadas que somam mais de 1,53 milhões de quilômetros por todo o nosso país.



Arte: Natália Lavínia A. de Souza;

Texto: Mariana G. Furquim;

Pesquisa: Aline Freiria dos Reis; Leonardo Plens;

Texto Instagram: Aline Freiria dos Reis.




Referências Bibliográficas:

RIBEIRO, D. J. da S. Ecologia de estradas e educação ambiental : um diálogo possível? Acervo Digital da UFPR BIBLIOTECA DIGITAL: Teses & Dissertações. 2020. Acesso em: 19 de fevereiro de 2022. Disponível em: <https://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/69846>.

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DAMKE, M. J. Ecologia de estradas: Impacto das rodovias na fauna de vertebrados do município de Santa Helena, PR. 2018. 34 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) - Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Santa Helena, 2018. Acesso em: 19 de fevereiro de 2022. Disponível em: <http://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/handle/1/15658>.

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DUMS, M. et al. Passagens inferiores de fauna como medida de conservação da Anta (Tapirus terrestris, Linnaeus 1758). Simpósio Brasileiro de Biologia da Conservação (Número 1, Ano 2017 – Anais, Resumos IV SBBC, Belo Horizonte, MG) - p.195 UFMG-Campus Pampulha, 03 a 07/12/2017. Acesso em: 19 de fevereiro de 2022. Disponível em: <https://grupobrasilverde.org.br/wp-content/uploads/2021/01/79.-IV-SBBC.pdf>.

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