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Enriquecimento Ambiental


Quando se fala em enriquecimento ambiental, são abordados todos os tipos e grupos de animais, como os animais domésticos e silvestres, principalmente em cativeiros, animais de laboratório e até mesmo os animais de produção.

Com a domesticação de espécies diferentes, datada de uns 12 mil anos, no Período Neolítico, nós passamos a mudar o ambiente onde certos animais vivem, seja num alojamento de um animal resgatado, nossa própria casa ou um recinto de produção, como por exemplo um galinheiro. Então se nós alojamos esses animais em algum lugar, seja em pasto, num apartamento, ou até mesmo numa gaiola, nos tornamos responsáveis pelo bem estar desses animais. Assim, são consideradas algumas premissas como os domínios do bem estar animal, dentre eles o domínio nutricional, sanitário, ambiental, psicológico e comportamental.

Desta forma, o enriquecimento ambiental vai atuar de maneira abrangente no sistema de alojamento animal, sendo este o ambiente que agrega todas as instalações, o manejo e tudo aquilo que se refere ao sistema que o animal vai passar a viver, afetando diretamente no comportamento e bem-estar do indivíduo.

Esse sistema de alojamento, vai gerar um grande impacto para o bem estar do animal ou população que ali se inserem. Este também deve considerar uma alimentação de boa qualidade, adequando-a às necessidades nutricionais da espécie. Além disso, o manejo no comportamento e bem estar animal é importante, sendo esses todos os procedimentos racionais que se empregam junto ao animal para um bom desempenho de todo o sistema de alojamento. E cada manejo implementado nesse sistema deve ser adequado à espécie que se está trabalhando.

Quando o sistema de alojamento não atende às necessidades do animal, seja na falta de espaço ou quando suas necessidades não são atendidas de maneira adequadas, a longo prazo podem ser geradas situações estressantes e surtir o que é chamado de comportamento estereotipado, que são comportamentos que começam a aparecer no sistema de alojamento de maneira repetitiva, de forma não natural, normalmente associado à algum estresse causado por ócio, por falta de atividade, como andar em círculos ou até mesmo automutilação.

Assim como nós, os animais sentem a necessidade de estarem ativos, principalmente o animal que ainda não está adaptado ao ambiente imposto à ele, sendo de obrigatoriedade do responsável, oferecer oportunidades para o animal “gastar” seu tempo. Porém, ao decorrer de um período com certa atividade ou objeto que foi apresentado ao animal, aquilo deixa de ser tão interessante e acontece o que é chamado de habituação, ou seja, é muito comum no sistema de alojamento o animal se habituar com vários estímulos que para ele, deixam de ser interessantes. Existem também pesquisadores que questionam esse comportamento e associam ao animal estar tentando se acostumar ou entrar em uma certa harmonia com o ambiente em que foi inserido, porém normalmente é resultado do ócio devido a falta de estímulos no espaço.

E é aí que entra a ideia do Enriquecimento Ambiental, vindo como uma das soluções para melhorar o bem estar animal no sistema de alojamento. Para entender melhor, imagine o seu animal de estimação, que permanece dentro de um apartamento, ou até mesmo de um único cômodo, durante todo o dia enquanto você está fora, por exemplo. O local tem apenas água e comida. O que esse animal tem para fazer? Quais as oportunidades que tem pra “gastar o tempo” dele? Isso leva o animal a permanecer muito tempo inativo, devido à falta de estímulos, ocasionando tédio, estresse, desmotivação, podendo acarretar distúrbios como a coprofagia, letargia, hiperagressividade, hipersexualidade, baixa socialização, redução na alimentação, entre outros. Ocorrendo assim, uma modificação nos seus atos comportamentais instintivos. Assim como as crianças, que precisam ser estimuladas o tempo todo para desenvolver seu sistema motor e cognitivo, os animais necessitam de algo lúdico e exploratório no seu tempo ocioso. Então esse animal que está preso sem nenhuma atividade, vai tender a apenas comer e dormir, sem nenhuma qualidade de vida, pois se ficar parado faz mal para nós, quem dirá para os animais.

Um exemplo da falta de enriquecimento espacial, por exemplo, são as galinhas poedeiras, que dentro de uma gaiola sem poder se movimentar terá, ao final de sua vida, osteoporose, já não teve espaço suficiente para uma mínima movimentação.

Desta forma o enriquecimento ambiental surge como uma oportunidade oferecida para esses animais para melhorar a qualidade de vida do animal em um sistema de alojamento, seja para um hamster em sua gaiola, ou para um elefante num Jardim Zoológico.

Para os animais domésticos, hoje há um grande comércio de enriquecimento ambiental, onde a grande parte dos lares têm um animal doméstico e seus tutores estão cada vez mais dispostos a investir em enriquecimento ambiental para seus animais de companhia, proporcionando-os uma melhor qualidade de vida.

O enriquecimento ambiental pode variar para o tipo de espécie, alojamento e inclusive no tipo do enriquecimento que vai ser utilizado, pois existem 6 principais maneiras de se melhorar o ambiente em que o animal está. São eles o Físico, onde se adicionam elementos no ambiente do animal, sendo esse o mais conhecido e muito importante para melhorar até mesmo o conforto do animal no alojamento, impactando de maneira positiva no seu bem estar. São exemplos os substratos naturais (solo, pedras, água) e artificiais (caixas, cordas e brinquedos), temperatura e espaço físico.

Já o enriquecimento Alimentar trabalha na alteração da forma, tipo e frequência de administração dos alimentos, como dispersão e congelamento. Esta técnica é muito importante para os animais silvestres, por exemplo, já que não conseguem o alimento tão facilmente na natureza, pois eles precisam caçar ou ir atrás da sua alimentação, então quando estão em cativeiro essas condições são mantidas para exercer seu instinto natural. Como aliado, o Sensorial, eleva o nível do desafio para o animal, usando músicas, sons naturais, diferenças de tato, temperatura e luminosidade para estimular os sentidos dos animais, trabalhando também no instinto desses animais, um quesito fundamental, principalmente para animais resgatados em recuperação para não se habituarem com a vida em cativeiro quando retornarem ao seu habitat natural.

O enriquecimento Social, principalmente para as espécies gregárias (que vivem em grupos), cria mudanças no tamanho e na composição de um grupo de animais, já que na natureza essa interação social acontece de formas diversas, na maioria dos grupos faunísticos eles interagem com outros indivíduos da mesma espécie sob diretrizes de hierarquia e submissão que determinam a sua estrutura de ação dentro do grupo.

No enriquecimento Ocupacional são introduzidos itens para estimular a atividade física e a movimentação corporal dos indivíduos, assim como na Interação Homem-animal, que é o contato com os tutores, os funcionários do recinto e profissionais da área responsáveis por aquele animal, que proporcionam brincadeiras, treinamentos e estimulação do exercício físico buscando sempre uma interação saudável com o animal.

Existem também os testes para ver quais enriquecimentos ambientais são os mais adequados para o ambiente e a espécie em que se está trabalhando. Pesquisadores se dedicam a experimentar e testar diferentes maneiras de melhoria para os ambientes, a fim de desenvolver enriquecimentos adequados e exclusivos de cada espécie e recinto.

É importante também se atentar na habituação, como já citada, fazendo o rodízio de enriquecimento ambiental, manejando-os de maneiras diferentes periodicamente, de acordo com um planejamento adequado para cada espécie e recinto. A tendência, principalmente com os elementos físicos do ambiente, é de que a interação no ínicio seja muito grande e vá diminuindo gradativamente, até que o indivíduo perca o interesse, levando a habituação novamente, podendo gerar um comportamento agonístico do animal, gerando estresse, podendo levar a disputas no recinto, por exemplo.

Exemplificando o sucesso com enriquecimento ambiental a Análise dos efeitos de enriquecimento olfativo nos comportamentos reprodutivos de Cação-lixa (Ginglymostoma cirratum) (BONNATERRE, 1788), foi um estudo realizado no Aquário de São Paulo e na Base de Visitantes do Projeto Tamar na Praia do Forte, localizada na Mata de São João na Bahia com um dos tubarões mais exibidos em Aquários no mundo, mas com uma taxa reprodutiva muito baixa em cativeiro. Os pesquisadores consideraram os mecanismos olfativos que esta espécie utiliza para a sua reprodução e o sucesso em potencial de enriquecimentos ambientais que afetam positivamente a reprodução desses animais sob cuidados humanos. O trabalho objetivou avaliar se a utilização de enriquecimento olfativo geraria efeitos na exibição de comportamentos reprodutivos de Cação-lixa.

O enriquecimento olfativo utilizado foi uma mistura de manjericão comercial (Ocimum basilicum) com água na forma de bloco de gelo, propiciando dispersão contínua no recinto durante a observação. A escolha desta erva deveu-se ao fato de o manjericão apresentar propriedades antioxidantes nos tecidos ovarianos em ratos, segundo pesquisadores, bem como aumento da espermatogênese, viabilidade, motilidade e testosterona sérica total.

O trabalho concluiu que o enriquecimento olfativo de manjericão com cação-lixa, Ginglymostoma cirratum, foi eficiente para aumentar a frequência de ocorrência de comportamentos reprodutivos. Assim, sugeriu-se que instituições que exibam elasmobrânquios (peixes cartilaginosos, os tubarões, arraias e quimeras) devem inserir enriquecimentos ambientais na rotina de manejo, principalmente se desejarem atingir o sucesso reprodutivo.

Portanto, para manter a saúde física e psicológica dos indivíduos, com seus comportamentos semelhantes ou mais proximamente relacionados àqueles que exibiriam em ambiente natural, é necessário o desenvolvimento de práticas em cativeiro que ofereçam estímulos semelhantes aos recebidos em seus ambientes nativos, instigando os animais a expressarem seus comportamentos naturais.




Arte: Natália Lavínia A. de Souza;

Texto: Mariana G. Furquim;

Pesquisa: Daniela Brustolin; Raphael Martins;

Texto Instagram: Aline Freiria dos Reis.


Referências Bibliográficas:

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