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Metodologia: Rede de neblina.


As redes que são utilizadas para captura de peixes e demais animais aquáticos você já sabe, mas, e se lhe disser, que existem redes que não são utilizadas na água, e, consequentemente, não tem os peixes como foco. Pois é, diferente, não? Hoje o texto tem como objetivo mostrar como funcionam as redes de neblina, quais seus propósitos, prós e contras.

A rede de neblina tem como principal objetivo a captura de dois grupos de animais, as aves e os morcegos. Esse método consiste em manter redes de malha, bastante fina, esticadas por hastes, podendo ser de metal, madeira ou mesmo materiais improvisados, como bambu (figura 1). O importante aqui é que as redes permaneçam esticadas, e a altura que será utilizada dependerá do propósito da pesquisa. O princípio é similar às redes convencionais de pesca. A ave, ou o morcego, enquanto está voando, acaba se chocando com a rede de neblina, que fica quase invisível por conta de sua malha fina. o animal então fica emaranhado e é capturado pelo método, tal qual acontece nas teias de aranha feitas para capturar insetos voadores. Essa técnica é bastante eficaz e quase obrigatória em listas de espécies destes grupos. Diferente da cama de areia, que só registra o animal pelo rastro deixado, este faz a captura efetiva do indivíduo, e isso traz alguns pontos que valem a pena uma breve discussão.


Quando pesquisadores podem ter o animal em mãos, abre-se um grande leque de possibilidades. É possível tirar medidas, sexagem, para verificar se é macho ou fêmea, fazer exames, coletas de ectoparasitas, como carrapatos, e muitas outras informações que só a captura pode proporcionar. Além disso, o anilhamento, aqueles anéizinhos que os pesquisadores colocam nos pés das aves, é uma ferramenta muito importante. Todas as informações do indivíduo anilhado, como peso, medidas e sexo, vão para um sistema que, caso outro pesquisador, até mesmo em outro país, capture este indivíduo, podera ter acesso a partir do código presente na anilha. O anilhamento de morcegos não possui um sistema completo como das aves, mas, ainda assim, em algumas pesquisas, é possível obter diversos resultados, como: se aquele indivíduo jovem cresceu, se o grupo está utilizando os mesmos locais para obtenção de alimento, entre outras inúmeras possibilidades.

Contudo, é necessário bastante atenção, e aqui entra um potencial ponto negativo deste método, assim como quase todos que envolvem a captura dos animais. Quando utilizado em biomas como a Caatinga, que tem a incidência solar muito alta, caso o pesquisador não faça a revisão das redes no tempo correto é possível que alguns indivíduos venham a óbito, por ficar tempo demais expostos ao calor do sol. O estresse que os animais capturados podem passar enquanto são retirados da rede também é um potencial problema. Acredite, para mãos não treinadas, retirar aves e morcegos de redes de neblina pode ser uma tarefa bastante complicada e que levará muito tempo, e isso, além de poder machucar o animal no processo, lhe causa bastante estresse. Porém, existe uma forma simples dos problemas citados serem evitados, basta possuir na equipe um profissional experiente no método, e que saiba a forma correta de retirar os animais, bem como tempo certo para cada revisão. Por fim, mais um problema em potencial são predadores oportunistas, que, ao ouvirem suas presas vocalizando, podem ir até o local e encontrarem elas presas nas redes, indefesas, virando um lanchinho fácil para eles. Infelizmente, nestes casos, evitar torna-se complicado, pois essas predações podem ser bastante rápidas e são imprevisíveis.

Vale ressaltar que métodos invasivos como redes de neblina não podem ser feitos por qualquer um. Antes de sair esticando redes por aí, é necessário uma licença expedida pelo órgão ambiental competente, e, para isso, é preciso ter um propósito muito bem delimitado, como uma pesquisa ou um estudo de impactos ambientais, por exemplo.

Como visto, este método é bastante efetivo e muito comum, mas é preciso atenção, pois o contato direto com o animal sempre exige respeito e segurança. O pesquisador deve utilizar todos os equipamentos de proteção pertinentes, como luvas, que evitam mordidas e bicadas, além de possíveis contaminações, tanto do animal para o pesquisador, quanto vice-versa. Por fim, quando acompanhar algum trabalho com aves, ou morcegos, você provavelmente verá longos trechos de trilha cobertos com essa rede de neblina, bem fininha, e quase invisível, inclusive pra gente, então tome cuidados para não ficar emaranhado em uma delas, acredite, isso é muito mais comum do que parece. No mais, caso tenha essa oportunidade, aproveite para apreciar bem de pertinho aquela ave bastante colorida que foi capturada..


Arte: Natália Lavínia A. de Souza;

Texto: Diego G. Cavalheri;

Pesquisa: Raphael Martins; Keity Souza;

Texto Instagram: Keity Souza; Raphael Martins.



Referências bibliográficas:


Bueno, A. S.; Anciães, M.; Araújo, P. S. G.; Freitas, M. A. Protocolo para levantamento de aves de sub-bosque pelo método de captura com redes de neblina em módulos RAPELD do PPBio/CENBAM 2014. Acesso em: 16 de abril de 2022. Disponível em: <https://ppbio.inpa.gov.br/sites/default/files/Protocolo_aves_sub-bosque_2014.pdf>.


Castro, I. J.; Silva, C. R.; Costa, A. J. S.; Martins, A. C. M. Predação oportunista de Artibeus planirostris (Spix, 1823) e Carollia perspicillata (Linnaeus, 1758) (Chiroptera, Phyllostomidae) por marsupiais e anuro na APA do Rio Curiaú, Amapá, Brasil. Acta Amazônica, 41(1), 171-174, 2011. Acesso em: 16 de abril de 2022. Disponível em: <https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/27962/1/ARTIGO_PredacaoOportunistaArtibeus.pdf>.


Ross, A. L.; Machado, M. X.; Burg Mayer, G.; Peres, L. M.; Rupil, G. Caindo na rede: a influência do local e estrutura de teias de aranhas na captura de presas Ecologia de Campo: Ambientes Costeiros e Montanos, 269-277, 2018. Acesso em: 16 de abril de 2022. Disponível em: <https://www.researchgate.net/profile/Andrei-Langeloh-Roos/publication/327295591_Caindo_na_rede_a_influencia_do_local_e_estrutura_de_teias_de_aranhas_na_captura_de_presas/links/5b873a9c299bf1d5a73117ee/Caindo-na-rede-a-influencia-do-local-e-estrutura-de-teias-de-aranhas-na-captura-de-presas.pdf>.


Serafini, P. P.; Lima, D. M. Código de ética do anilhador. 2020 ICMBio. Acesso em: 16 de abril de 2022. Disponível em:<https://www.gov.br/icmbio/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/publicacoes-diversas/fauna-e-flora/manual-de-anilhamento-de-aves-silvestres/manual_de_anilhamento_de_aves_silvestres.pdf >.


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