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Porque a Varíola não é dos Macacos?


Tudo começou em 1958: Em uma instalação de animais em Copenhague, Dinamarca, um laboratório recebeu um fornecimento de macacos asiáticos (principalmente M. fascicularis) e rhesus macaques que foram usados na época para uma pesquisa de vacina contra pólio.


Dois meses após o recebimento dos animais, aconteceu o primeiro surto de uma doença até então desconhecida, que se manifestou com erupções (feridas) na pele e que foram observadas em vários locais do corpo: tronco, cauda, rosto, membros, palmas das mãos e solas dos pés. Apesar disso, a saúde geral dos animais parecia relativamente normal e as lesões formavam crostas, cicatrizaram e caíam. Então, os cientistas recolheram uma amostra das feridas dos animais doentes para poder identificar o que estava causando aquela doença. Os resultados mostraram que o vírus era semelhantes ao de VARV (vírus da small pox, responsável pela variola humana), mas possuiam distinções. Como foram identificados nos macacos, surgiu o nome: “Monkeypox” ou “Varíola dos Macacos” - como é traduzido em português.


O vírus monkeypox pertence ao gênero Orthopoxvirus, família Poxviridae. Assim, sabemos também que a varíola dos macacos é uma parente (pertencente ao mesmo gênero) da varíola humana - doença que foi erradicada em 1980. No entanto, ela é menos transmissível, causa sintomas mais leves e é menos mortal (Ufa!). Um ponto importante dessa doença é que se trata de uma zoonoze, ou seja, uma doença que pode transitar entre os animais, incluindo os seres humanos.


Embora a identificação tenha sido feita em 1958, o primeiro caso humano foi relatado apenas em 1970, na República Democrática do Congo, durante um período de intenso esforço para erradicar a varíola humana. Desde então, foram registrados casos em 11 países africanos: Benin, Camarões, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Gabão, Costa do Marfim, Libéria, Nigéria, República do Congo, Serra Leoa e Sudão do Sul, sendo o numero maior de infecções na República Democrática do Congo.


A doença é rara e causa surtos, principalmente, nas regiões de floresta tropical da África Central e Ocidental, pois são endêmicas da região e, normalmente, não é observada fora da África. Uma doença endêmica é aquela que se manifesta com frequência em determinadas regiões, geralmente provocada por circunstâncias ou causas locais.


Os casos de varíola em pessoas que ocorreram fora da África geralmente são ligados a viagens internacionais ou animais importados. Entre 2018 e 2021, haviam sido relatados sete casos de varíola dos macacos no Reino Unido, principalmente em pessoas com histórico de viagens para países endêmicos. Até então, isso era esperado, uma vez que o risco de contágio está relacionado com a exposição ao vírus, certo?


No entanto, mais casos estão surgindo em vários países e preocupando autoridades de saúde. Isso porque, vários casos não têm conexão conhecida entre si, levantando preocupações de que a infecção foi contraída por transmissão comunitária, isso significa que o vírus pode estar se espalhando de uma pessoa para a outra. O que levanta o temor de uma nova pandemia, como a da COVID-19.


A boa notícia é que isso provavelmente está longe de ser verdade! A varíola dos macacos geralmente é uma doença leve e autolimitada (não precisa de tratamento) e a maioria das pessoas se recupera em algumas semanas. É importante enfatizar que essa doença não se espalha facilmente entre as pessoas e o risco geral para o público em geral é muito baixo. Falaremos mais sobre as formas de contágio logo abaixo!


O Sars-CoV-2 (vírus responsável pela COVID-19) se espalha rapidamente pelo ar em minúsculas gotículas quando pessoas infectadas falam, espirram ou tossem. O vírus da varíola dos macacos (MPXV) não se espalha tão facilmente pelo ar e, muitas vezes, requer contato físico próximo com uma pessoa infectada. Além disso, o vírus da varíola dos macacos é um tipo de vírus que geralmente não sofre mutações, são bastante estáveis e menos propensos a gerar variantes.


Existem duas cepas principais (variações do vírus): a do Congo, que é a mais grave — com até 10% de mortalidade — e a da África Ocidental, que tem uma taxa de mortalidade em cerca de 1% dos casos. Os casos atuais do Reino Unido foram notificados como pertencentes à cepa da África Ocidental (variante menos grave).


Contágio É possível contrair o vírus por meio da mordida ou arranhão de um animal infectado, comendo carne de caça e estando em contato direto com um humano infectado. O vírus entra no corpo através de lesões na pele, no trato respiratório ou nas membranas mucosas (olhos, nariz ou boca). Acredita-se que a transmissão entre humanos ocorra principalmente por meio de grandes gotículas respiratórias, que geralmente não podem viajar mais do que alguns metros, portanto, seria necessário um contato pessoal prolongado. Devido à isso, tem surgido hipóteses de transmissão por relações sexuais. Existe a possibilidade de que a transmissão pode não ocorrer por meio do sexo em si, mas com o contato próximo associado à relação sexual.

O período de incubação da varíola dos macacos é geralmente de seis a 13 dias, mas pode variar de cinco a 21 dias - tempo que as pessoas infectadas precisam ficar isoladas e em observação.


Sintomas Os sintomas iniciais da monkeypox incluem febre, dor de cabeça, dores musculares, dores nas costas, linfonodos inchados, calafrios e exaustão. As lesões na pele são características da doença, podem variar de algumas a milhares e se desenvolvem primeiro no rosto, depois se espalham para outras partes do corpo, incluindo os genitais. A erupção muda e passa por diferentes estágios, e pode parecer catapora ou sífilis, antes de finalmente formar uma crosta, que depois cai. Esses sintomas podem ser leves ou graves, e as lesões na pele podem ser pruriginosas (que coçam) ou dolorosas. Casos mais leves de varíola podem passar despercebidos e acabam representando um risco de transmissão de pessoa para pessoa.

Uma problemática é que o nome pode dar a impressão de que a culpa, ou mesmo fonte da doença, é dos primatas. Mas, a varíola dos macacos não é culpa dos macacos! Vamos saber o por quê?


Em primeiro lugar, conforme a Sociedade Brasileira de Primatologia, apesar do vírus receber a nomenclatura de varíola dos macacos, o atual surto não tem a participação de macacos na transmissão para seres humanos. Todas as transmissões identificadas até o momento pelas agências de saúde no mundo foram atribuídas à contaminação por transmissão entre pessoas. Dessa forma precisamos ter em mente que os macacos não são os “vilões”, e sim vítimas como nós, uma vez que eles também são afetados pela doença. Além disso, não devem sofrer nenhuma retaliação, tais como agressões, mortes, afugentamento ou quaisquer tipos de maus tratos.

Ainda, o hospedeiro reservatório da MPXV, isto é, o animal que mantém o vírus na natureza, permanece desconhecido. Estudos sugerem que os roedores são os mais prováveis. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), na África foram encontradas evidências de infecção pelo vírus da varíola dos macacos em muitos animais, incluindo esquilos de corda, esquilos de árvore, ratos-gigantes-africanos, arganazes e diferentes espécies de macacos.

Por que agora?

Alguns cenários podem estar por trás do novo surto. Um deles, é o aumento das viagens à medida que as restrições da covid-19 estão sendo suspensas. Outra razão é que com a erradicação da varíola, houve o encerramento das campanhas de vacinação que levou a um salto nos casos da doença em áreas onde ela é endêmica.

O aumento do desmatamento também pode expor mais pessoas ao vírus. A derrubada de florestas para substituição por plantações e pela agricultura provavelmente aproximará humanos e animais silvestres contaminados, aumentando as oportunidades de deslocamento do vírus entre espécies, como se sugere que ocorreu com o ebola.


Existe tratamento? Atualmente, não há tratamento específico recomendado para a varíola dos macacos e geralmente ela desaparece por conta própria. Desinfetantes domésticos comuns podem matar o vírus da varíola dos macacos no ambiente.

Acredita-se que a vacinação contra a varíola seja altamente eficaz na prevenção da varíola dos macacos, mas como a varíola foi declarada erradicada há mais de 40 anos, as vacinas contra a varíola de primeira geração não estão mais disponíveis para o público em geral. Uma vacina mais recente desenvolvida pela Bavarian Nordic para a prevenção da varíola e da varíola dos macacos foi aprovada na União Europeia, Estados Unidos e Canadá (sob os nomes comerciais Imvanex, Jynneos e Imvamune), e antivirais também estão em desenvolvimento.


Alguns desafios para lidar com o surto da forma eficaz: Por se tratar de uma zoonose viral, é necessário o compartilhamento rotineiro de informações entre os setores de saúde humano e animal. Isso ressalta a importância da integração entre a saúde humana, animal e o meio ambiente, chamado de saúde única. A desigualdade social aflora todas essas questões: Os casos de monkeypox acontecem frequentemente em áreas rurais florestadas, que muitas vezes têm acesso limitado aos serviços de saúde. O estabelecimento de sistemas adequados de vigilância de doenças requer investimentos financeiros e humanos iniciais e de longo prazo, o que foge da realidade de muitos locais. A educação e a comunicação para com as famílias e comunidades afetadas são componentes importantes e que devem ser levados em consideração. A saúde pública precisa abordar comportamentos potencialmente de risco: caça, consumo de carne silvestre e contato com pessoas doentes. Engajar as comunidades no desenvolvimento de intervenções viáveis e incentivar o comportamento necessário em busca de saúde é essencial. A educação ambiental também é essencial nesse cenário! A guerra civil e o deslocamento populacional podem forçar os habitantes a buscar fontes alternativas de proteína, incluindo o consumo de animais silvestres, sendo um suposto condutor da infecção por varíola dos macacos. Esses surtos, bem como outras catástrofes, nos mostram um grave desequilíbrio no ecossistema. É preciso olhar para o planeta como um só, pois o desequilíbrio de um afeta todos os outros. E lembre-se: a culpa não é dos macacos!


“Se alguém procura à saúde pergunta-lhe primeiro se está disposto a evitar no futuro as causas da doença, em caso contrário, abstém-te de ajudar” Sócrates


É importante saber que, por ser um surto atual, novas notícias e informações tem surgido todos os dias. Procure sempre checar as fontes para não compartilhar notícias falsas (fake news). Separamos alguns sites confiáveis para você se manter atualizado:


Veja as diferenças entre a varíola monkeypox e a varíola humana e como elas afetam os humanos - Instituto ButantanCom 92 casos confirmados, OMS monitora surto de varíola dos macacos | ONU News.

Varíola dos macacos: o que se sabe sobre casos suspeitos no Brasil - BBC News Brasil. Ministério da Saúde institui Sala de Situação para monitorar casos a varíola dos macacos no Brasil — Português (Brasil) (www.gov.br).

Texto: Amanda Oliveira;

Pesquisa: Amanda Oliveira; Daffiny Kapitanovas;

Texto Instagram: Amanda Oliveira

Arte: Aline Freiria dos Reis.

Referências

-Sociedade Brasileira de Primatologia. Tema: Varíola dos Macacos (2022). Disponível em: <https://www.sbprimatologia.org.br/5474-2/>. Acesso em 04 de Junho de 2022.


BBC News. Varíola dos macacos: o que se sabe sobre rara infecção viral que está deixando autoridades de saúde em alerta (2022). Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-61449421>. Acesso em 30 de maio de 2022.

National Geographic. Priyanka Runwal. Casos de varíola dos macacos estão aumentando – o que se sabe até agora. Disponível em: <https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2022/05/casos-de-variola-dos-macacos-estao-aumentando-o-que-se-sabe-ate-agora>. Acesso em 30 de maio de 2022 Durski, K. N., McCollum, A. M., Nakazawa, Y., et al. (2018). Emergence of Monkeypox - West and Central Africa, 1970-2017. Disponível em : <https://doi.org/10.15585/mmwr.mm6710a5>. Acesso em 30 de maio de 2022.


Scott Parker. R Mark Buller. A review of experimental and natural infections of animal with monkeypox virus between 1958 and 2012. Future Medicine (2013). Disponível em: <https://www.futuremedicine.com/doi/10.2217/fvl.12.130>. Acesso em: 03 de junho de 2022.


CDC. About Monkeypox (2021). Disponível em: <https://www.cdc.gov/poxvirus/monkeypox/about.html>. Acesso em 30 de maio de 2022. GOV.UK. Monkeypox: background information (2018) - Disponível em: <https://www.gov.uk/guidance/monkeypox>. Acesso em 30 de maio de 2022.


Instituto Butantan. Varíola dos macacos: o que é a doença, seus sintomas e por que ela afeta humanos (2022). Disponivel em:<https://butantan.gov.br/covid/butantan-tira-duvida /tira-duvida-noticias/variola-dos-macacos-o-que-e-a-doenca-seus-sintomas-e-por-que-ela-afeta-humanos> Acesso em: 26/05/2022.

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